O erro mais frequente em 2018

Evitemos os erros de 2018, façamos melhor em 2019. Os guias e as compilações de melhores práticas não têm evitado uma falha quase que generalizada no registo das atividades de tratamento de dados imposto pelo RGPD. Esperemos que 2019 traga melhores registos.

Creio que o motivo da falha recorrente no registo das atividades de tratamento de dados pessoais (RATDP) reside no facto de se confundir a orientação dada pelo artigo 30º do RGPD (registo das atividades de tratamento) com o que é mais correto do ponto de vista operacional e o que é mais indicado para apresentação a uma autoridade de controlo, CNPD ou outra qualquer. Isto é, pede-se mais que uma leitura estritamente jurídica, exige-se um entendimento mais operacional e de gestão.

Antes de desenvolver esta ideia, importa salientar a relevância do RATDP para se ter uma correta perceção do impacto deste erro. O deficiente registo das atividades de tratamento de dados pessoais é, não só frequente, como compromete de forma muito significativa todo o esforço de conformidade RGPD.

Atendamos a que:

  • O RATDP é a trave mestre da conformidade RGPD, é onde o DPO concentra a maior parte do seu esforço
  • O RATDP é o ponto de referência da administração da organização responsável pelo tratamento dos dados
  • O RATDP é o ponto de entrada utilizado pela entidade de controlo (CNPD)

Em termos de auditoria a constatação de um RATDP deficientemente organizado não corresponde de forma linear a um parecer adverso ou negativo (declaração expressa de não demonstração de conformidade), ou a um parecer de abstenção de opinião (impossibilidade do auditor obter todas as evidências comprobatórias), ou a um parecer com ressalvas (adoção de procedimentos não considerados adequados ou geralmente aceites nas circunstâncias). É um facto que o cumprimento do artigo 30º, de forma estrita, permite, à partida, passar a avaliação inicial do RATDP, mas o aprofundamento do tema da conformidade com essa base é operacionalmente deficiente e não facilita o trabalho da atividade de controlo. Um RATDP deficiente não impossibilita a conformidade, mas é um mau começo e, na prática, indicia uma conformidade insuficiente.

Comecemos por identificar o erro para depois expormos a forma correta de realizar o RATDP.

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It´s the management, stupid

A distorção de valores compromete a harmonia do todo. Hipervalorizar ou diminuir qualquer das três dimensões da proteção de dados (jurídica, tecnológica e gestão) compromete seriamente o resultado final.

Ficou celebre o slogan “It’s the economy, stupid” utilizado por Bill Clinton na campanha presidencial de 1992, que pretendia sublinhar a importância da economia e o que isso significava em termos de emprego, segurança, poder de compra e qualidade de vida. Isto é, apelava ao voto prometendo uma mudança na economia.

Quando digo “It´s the management, stupid” é para enfatizar a importância da “gestão” que por vezes é indevidamente subvalorizada. Exemplifico essa subvalorização com um post do jurista Stewart Room no blog da PwC do UK (aqui) em que defende a tese de que tudo se resume à questão tecnológica. Nesse mesmo sentido, outro exemplo é o meu post (aqui) sobre  a tese de Woodrow Hartzog (Professor of Law and Computer Science) de que a tecnologia não é neutra e tudo se acaba por reduzir ao modelo de negócio e à tecnologia.

É bom lembrar que a Gestão é a área das ciências sociais e humanas que se dedica à administração de organizações visando fazer com que alcancem os seus objectivos de forma efectiva, eficaz e eficiente. Gestão é: Promover resultados, perseguir metas, resolver problemas, promover mudanças.

Parece um contra-senso, mas é um facto que muitos juristas tendem a sobrevalorizar a questão tecnológica. Vejamos a argumentação de Stewart Room.

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Why Privacy by design is everything?

Porque razão a definição de privacidade é uma questão tão controversa?

A comunicação de encerramento do IAPP Europe Data Protection Congress 2018 realizada por Woodrow Hartzog (Professor of Law and Computer Science at Northeastern University School of Law and the College of Computer and Information Science) teve o impacto de uma verdade inconveniente e deixou a audiência sem muita vontade de comentar. Até os comentários do site oficial da IAPP preferiam abordar os temas correntes e banais do enforcement e do brexit, omitindo o doloroso tema trazido por Woodrow Hartzog.

Agora que a visão europeia de proteção de dados parecia estar a definir-se como o padrão mundial, centrando-se no conceito de controlo do utilizador vem Hartzog lançar a dúvida e rasgar novos horizontes. Contudo, é meu entendimento que o RGPD está suficientemente bem concebido para suportar esta nova visão de “design is everything” sustentada por Hartzog. Não só porque o RGPD incorpora “Privacy by Design” (ainda que carecendo de densificação) como porque aponta para a via das certificações e códigos de conduta.

Na sua comunicação ao Congresso, Woodrow Hartzog evidenciou como a definição de proteção de dados pessoais está ligada à visão europeia assente no conceito de controlo.

Mas recapitulemos com a ajuda das “Breves notas sobre a ressignificação da privacidade” de Erick Peixoto e Marcos Júnior que pode ver na integra aqui.

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