Na senda do artigo 80 do RGPD

O futuro das ações coletivas sobre proteção de dados

Max Schrems, fundador da ONG “Europa versus Facebook” e atual leader da ONG Noyb.eu (None of Your Business) é um ativista da proteção de dados que tem vindo a mostrar a relevância do artigo 80 do RGPD.

O ativismo de Max Schrems tem consequências! Ser “à-prova-de-Schrems” é mais que um selo de conformidade. Não faltam motivos para Schrems ser malquisto por muitos. Max Schrems foi responsável pelo desmoronar do acordo Safe Harbor EU-U.S. referente à recolha, utilização e retenção de dados pessoais. Max Schrems denunciou irregularidades de privacidade da Facebook, Apple, Microsoft, Skype e Yahoo.


“In practice many individual users are not willing to file legal actions against obvious privacy violations, because of (often rather trivial) costs if a case is lost. This leads to almost no litigation in privacy cases, even if costs are low”

Max Schrems

O RGPD, no artigo 80, introduziu a possibilidade de serem criadas ONGs (organizações não-governamentais) ou associações sem fins lucrativos, que sejam devidamente constituídas ao abrigo do direito de um Estado-Membro representativas dos titulares dos dados que podem apresentar queixa em nome dos lesados por violações de dados. Mais, os Estados-Membros podem prever que essas organizações possam nesse Estado-Membro, apresentar uma reclamação à autoridade de controlo competente caso considerem que os direitos dos titulares foram violados em virtude do tratamento, e isto, independentemente de um mandato conferido pelo titular dos dados.

A Dra. Cristina Pimenta Coelho, no livro “Comentário ao Regulamento Geral de Proteção de Dados”, interpreta o artigo 80 referindo que “um lugar paralelo que podemos encontrar no ordenamento jurídico interno é o das associações sindicais que, de acordo com o artigo 56.° da Constituição da República Portuguesa “representam”, ou melhor, defendem por “direito próprio” os direitos e interesses, individuais ou coletivos, dos trabalhadores, não sendo meras representantes ou mandatárias dos trabalhadores.”

É impossível referir o artigo 80 sem mencionar as queixas da Noyb e da “La Quadrature du Net” à CNIL (autoridade para a proteção de dados de França) que fundamentaram a coima de 50 milhões de euros à Google.

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ICO: – “RGPD numa fase critica”

Qual a principal fonte de inconformidade RGPD?

Quer o caso da violação de dados do Yahoo, quer o caso do Facebook, demonstram bem falhas organizativas que sustentam a tese da presidente da ICO.

Segundo a ICO estamos a entrar numa fase critica de afirmação do RGPD que requer um novo foco na proteção holística de dados, incorporando uma sólida governança dos dados pessoais em todos os processos da atividade da organização.

No passado dia 8 de Abril, Elizabeth Denham, presidente da ICO (a autoridade para a proteção de dados pessoais do Reino Unido) na conferência Data Protection Practitioners 2019 (aqui) afirmou, perante mais de 800 pessoas, a absoluta necessidade de considerar adequadamente o principio da accountability (responsabilidade ou responsabilidade demonstrada).

We find ourselves at a critical stage. For me, the crucial, crucial change the law brought was around accountability. Accountability encapsulates everything the GDPR is about.”

Elizabeth Denham, Information Commissioner (ICO)

Este é, de resto, um tema recorrente deste blog como se pode ver aqui, aqui e aqui, entre outros.

Mas qual a relação da afirmação de Elizabeth Denham com os casos do Yahoo e do Facebook?

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Um caso de coima relativa ao artigo 14 do RGPD

Poderá o princípio da proporcionalidade ser um pretexto para a arbitrariedade?

Que argumentação, que justificações, que perguntas são razoáveis para testar o princípio da proporcionalidade? E, sobretudo, que método utilizar para testar o princípio da proporcionalidade?

A autoridade polaca para a proteção de dados pessoais (UODO), aplicou uma coima (comunicado da UODO aqui) que suscita uma questão interessante sobre a aplicação do princípio da proporcionalidade no que respeita ao direito de o titular dos dados ser informado quando os seus dados pessoais não são recolhidos junto de si. Tivesse a UODO explicado de forma completa a fundamentação da coima, poderíamos ter um caso de estudo, assim, teremos que aguardar pela decisão do tribunal. De qualquer forma importa reter as linhas vermelhas traçadas pela UODO.

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A primeira coima dinamarquesa

Deficiente pseudonimização pode vir a custar 2,8% da faturação.

A autoridade dinamarquesa de controlo dos dados pessoais (DPA) solicitou a imposição de uma coima de 1,2 milhões de coroas dinamarquesas (€160.751) à empresa de táxis TAXA 4×53, por deficiente pseudonimização e minimização de dados.

A notícia pode ser lida aqui.

A centenária empresa de táxis dinamarquesa com mais de 800 táxis em Copenhaga é líder de mercado e mantém uma base de dados com um histórico de nove milhões de viagens.  

Embora a aplicação da coima esteja reservada ao tribunal, verifica-se que de uma forma geral os tribunais tendem a estar alinhados com as penalidades propostas pelos reguladores. À medida que for sendo criada jurisprudência a DPA dinamarquesa poderá vir a aplicar coimas, mas como este ainda é o primeiro caso, tudo terá que ser resolvido em tribunal.

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A inconformidade dos “cookies walls”

O uso de cookies e a eventual obtenção do respetivo consentimento têm que seguir a Directiva ePrivacy e o RGPD.

A autoridade holandesa de controlo dos dados pessoais (DPA) clarificou (aqui) que os “cookies walls” são, em muitos casos, uma prática irregular que não respeita o RGPD.

O tema é controverso e em última instância irá caber ao Tribunal de Justiça da União Europeia dar clareza jurídica a esta questão. É de esperar alguma resistência a este entendimento da autoridade holandesa de controlo dos dados pessoais, não só porque a sua adequabilidade depende das condições particulares de cada caso, como o benefício obtido pela utilização dos cookies é demasiado importante para não merecer oposição.

Nem na diretiva 2002/58/CE (ou «ePrivacy Directive») do Parlamento Europeu e do Conselho de 12 de julho de 2002, relativa ao tratamento de dados pessoais e à proteção da privacidade no sector das comunicações eletrónicas, depois transposta para o ordenamento jurídico português através da Lei 41/2004 de 18 agosto e alterada pela Lei 46/2012 de 29 agosto, nem no RGPD conseguimos encontrar uma resposta simples para a questão. A única solução é acrescentar um pouco de ponderação aos princípios evocados pela lei e com sentido de proporcionalidade utilizar prudência e respeito pelo titular dos dados.

Para uma clara perceção das fronteiras da ePrivacy e o do RGDP consulte-se (aqui) o documento publicado este mês pela EDPB (European Data Protection Board – Conselho Europeu para a Proteção de Dados), intitulado “Opinion 5/2019 on the interplay between the ePrivacy Directive and the GDPR, in particular regarding the competence, tasks and powers of data protection authorities”.

Recapitulemos o conceito de cookie e entendamos a que tipo de cookies se refere a DPA holandesa.

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Será que a CNPD vai inspecionar a ASAE?

É razoável suspeitar que a ASAE cometeu uma grave violação de dados pessoais.

Será que a CNPD afirmou que a ASAE vai poder analisar quem financiou a greve dos enfermeiros? Ou será que a CNPD se limitou a dizer à plataforma PPL de crowdfunding que deveria dar acesso à ASAE aos dados pessoais constantes da sua plataforma?

No sítio da CNPD (aqui) pode ler-se que a CNPD entendeu que, de acordo com a legislação de proteção de dados pessoais, «nada obsta» à disponibilização à ASAE, «para a prossecução das atribuições e o estrito exercício das competências em que está legalmente investida», da informação por esta solicitada à detentora da plataforma de financiamento colaborativo PPL.

Ora isto são duas coisas totalmente diferentes. Uma coisa é dizer-se que a ASAE pode aceder aos dados na prossecução das suas atribuições e competências e outra coisa é dizer-se que a ASAE pode aceder aos dados pessoais para identificar quem financiou a greve dos enfermeiros para avaliação da licitude sobre o financiamento da greve.

É que pelo que tem sido dito as atribuições e competências da ASAE em matéria de financiamento colaborativo circunscrevem-se à prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo.

Clarifique-se que branqueamento de capitais é a transformação, por via de atividades criminosas que visam a dissimulação da origem ou do proprietário real dos fundos, dos proventos resultantes de atividades ilícitas, em capitais reutilizáveis nos termos da lei, dando-lhes uma aparência de legalidade.

Tal como se pode ver aqui, o processo de branqueamento engloba três fases distintas e sucessivas:

1 – Colocação: os bens e rendimentos são colocados nos circuitos financeiros e não financeiros;

2 – Circulação: os bens e rendimentos são objeto de múltiplas e repetidas operações, com o propósito de os distanciar da sua origem criminosa, apagando (branqueando) os vestígios da sua proveniência e propriedade;

3 – Integração: os bens e rendimentos, depois de reciclados, são reintroduzidos nos circuitos económicos legítimos (por exemplo, através da sua utilização na aquisição de bens e serviços).

Note-se que a polémica sobre o financiamento da greve dos enfermeiros não suscita nenhuma questão ao nível da colocação, circulação ou integração.  

Aqui a ASAE dá nota da sua autoridade para fiscalizar as plataformas de financiamento como a PLL afirmando que no âmbito das medidas de natureza preventiva e repressiva de combate ao branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo, decorrente da Lei n.º 83/2017 de 18 de agosto, as entidades gestoras de plataformas de financiamento, passam a ser entidades equiparadas a entidades obrigadas, sendo-lhe assim aplicado o referido regime, ainda que simplificado, conforme o art.º 5 deste diploma.

Ora a prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo nada tem a ver com o efetivo propósito da ASAE.

Podemos tentar acreditar na versão oficial expressa pelo inspetor-geral da ASAE, Pedro Gaspar, ao Expresso de que “as circunstâncias atuais precipitaram uma avaliação prévia às seis campanhas ativas, entre as quais a dos enfermeiros”, e que “não existiu qualquer indicação do Governo”. Portanto, estarão a ver as campanhas de financiamento com a finalidade da prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, se bem que o deslize sobre “as circunstâncias atuais”, deixe perceber a verdadeira intenção política.

No meio da polémica, o PS defendeu no Parlamento uma mudança no regime do crowdfunding, criado em 2015 precisamente através de uma proposta sua, para que acabe o carácter anónimo das contribuições. Os socialistas querem assim saber, no futuro, quem financia, por exemplo, as greves que estão a paralisar diversos serviços hospitalares. Diga-se que a forma como as pessoas financiaram a greve dos enfermeiros não teve nada de anónimo. Todas as doações foram feitas através do sistema bancário e, portanto, totalmente identificadas.

E esta é a verdade objetiva, a finalidade da ASAE é saber quem financiou a greve dos enfermeiros no quadro de um confronto politico-sindical. Vejamos o que dizia a imprensa (aqui): “Qual é o objetivo da investigação? Validar todas as informações dadas pelos enfermeiros em greve quanto à origem dos fundos, averiguar quanto foi o dinheiro angariado e se há incompatibilidade nas doações”. Ora isto não é combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo. Isto é tratamento de dados para fins políticos.

O mais grave é que todos sabíamos disso e a CNPD também. A CNPD poderá ter dado uma resposta correta à PPL, mas não alertou a ASAE para o facto de que o acesso aos dados para a finalidade pretendida não era lícito. É razoável pensar que a CNPD agiu de forma informada e consciente, fechando os olhos à provável violação de dados que a ASAE estava a preparar.  Se assim foi, é altamente criticável. Agora só resta saber se vai ser conivente com a ASAE ou se vai fiscalizar à posteriori. Na minha opinião a CNPD tinha informação suficiente para saber que a ASAE estava a preparar-se para uma finalidade ilícita e deveria ter atuado de forma preventiva. A CNPD devia ter evitado a provável violação de dados.

Assumindo que a ASAE fez um tratamento em larga escala de categorias especiais de dados, espera-se que tenha realizado a respectiva Avaliação de Impacto sobre Proteção de Dados (AIPED) e que tenha agido de forma proporcional. Seria muito positivo que a CNPD reconhecesse a razoabilidade da atuação da ASAE validando o referido AIPD.

É legitimo pensar se não teria feito sentido, a ASAE ter realizado uma consulta prévia à CNPD sobre a análise de impacto do tratamento de dados. Importa reter a seguinte passagem do GRUPO DE TRABALHO DO ARTIGO 29 WP 248 :

d) Existe uma obrigação de publicar a AIPD? Não, mas a publicação de um resumo pode fomentar a confiança, e a AIPD completa deve ser comunicada à autoridade de controlo em caso de consulta prévia ou se tal for solicitado pela autoridade de proteção de dados.
A publicação de uma AIPD não é um requisito jurídico do RGPD, essa decisão recai sobre o responsável pelo tratamento. Contudo, os responsáveis pelo tratamento devem considerar, pelo menos, a publicação parcial da AIPD, por exemplo, um resumo ou uma conclusão.
A finalidade dessa publicação parcial seria ajudar a fomentar a confiança nas operações de tratamento do responsável pelo tratamento e demonstrar responsabilidade e transparência. Considera-se uma boa prática publicar uma AIPD quando os membros do público são afetados pela operação de tratamento. Acontece em especial quando a AIPD é realizada por uma autoridade pública.

WP 248 – Orientações relativas à Avaliação de Impacto sobre a Proteção de Dados (AIPD) e que determinam se o tratamento é «suscetível de resultar num elevado risco» para efeitos do Regulamento (UE) 2016/679

Péssimo será se não tivermos notícia de uma inspeção da CNPD à ASAE. É que estamos a falar de dados pessoais relacionados com sindicalismo e política, isto são mais que dados sensíveis, isto são categorias especiais de dados pessoais.

Mau já foi a CNPD não ter atuado preventivamente protegendo à priori os dados pessoais associados a uma luta politico-sindical.

Pior, foi não termos visto juristas ou a própria Ordem dos Advogados no espaço publico a clarificarem esta situação.

A lição aprendida é: Cuidado com “o longo braço” do Estado.

Serão, mesmo, dados pessoais?

A definição de dados pessoais inscrita no RGPD é simples e clara, mas a prática suscita várias questões, vejamos uma dessas questões.

Para a ICO determinados dados tanto podem ser dados pessoais como não ser, dependendo da finalidade do tratamento. Parece confuso? Sim, é confuso, e até pode gerar extrapolações de alcance significativo. Recomenda-se uma interpretação prudente.

A ICO (aqui) começa por afirmar que determinados dados na posse de uma organização podem ser dados pessoais, mas, eventualmente, se estiverem na posse de outra organização já podem deixar de ser considerados como dados pessoais. A mesma informação em organizações diferentes adquire naturezas diferentes. E explica que a diferença resulta da finalidade com que as duas organizações tratam a mesma informação.

A ICO ilustra esta orientação dando o exemplo que se relata de seguida.

Um jornalista tira uma fotografia na praia para publicar num artigo de jornal sobre as elevadas temperaturas para a época. A fotografia mostra algumas pessoas na praia e dada a qualidade da mesma é possível identificar, reconhecer, algumas das pessoas na praia.

Considera-se que o jornalista não trata a fotografia para conservar informação sobre as pessoas fotografadas, ou analisar as pessoas, ou apreender/decidir algo acerca dessas pessoas. Acrescento eu, que para o jornalista/jornal a fotografia é de pessoas anónimas ou pelo menos razoavelmente anonimizadas.  

Uma das pessoas fotografadas na praia tinha metido, exatamente para esse dia, um dia de nojo por falecimento de um familiar.

Alguns colegas de trabalho viram a fotografia no jornal, digitalizaram e enviaram por email para o chefe do fotografado. A fotografia é adicionada ao ficheiro do colaborador dando início a um processo disciplinar.

Esta mesma fotografia, agora na posse do seu empregador, tem a finalidade de documentar o seu colaborador, acrescentando informação e contribuindo para decidir algo acerca dessa pessoa. Por esta razão a fotografia para o empregador passa a ter a natureza de dado pessoal. Acrescento eu, é informação sobre uma pessoa singular perfeitamente identificada.

Conclui a ICO: É necessário considerar cuidadosamente a finalidade para a qual a organização está a usar os dados para decidir se estão relacionados com um indivíduo. Ou seja, é a finalidade que revela uma das características fundamentais (“relacionado com”, ou “relativo a”) para a classificação da informação como sendo um dado pessoal.

Diga-se, em abono da verdade, que o exemplo da ICO parece razoável e convincente. Mas duvido que esteja bem fundamentado, ou pelo menos, que tenha elencado todas as características do caso que suscitam a sua aceitação pelo senso comum.

Sem mais interpretações, e seguindo a orientação da ICO podem colocar-se várias questões, vejamos as seguintes:

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As toupeiras

A segurança da informação está no topo das preocupações dos CEOs. Em Portugal a preocupação será menor porque, somos um país de otimistas. E, como todos muito bem sabemos, a gestão de risco, em Portugal, pauta-se pelos otimismos e pessimismos.

Em Portugal sucedem-se os casos de toupeiras. São as toupeiras do Benfica, do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP), da Inspeção Geral de Finanças (aqui) e agora, ao que parece, poderá haver mais um caso de toupeiras na Câmara Municipal de Ovar.

Até no caso da Sociedade de Advogados PLMJ, em que foi tornado publico mais de 4GB de informação, há dúvidas sobre a participação interna. Há uma linha de investigação sobre um eventual apoio de pessoas que conheciam o sistema de informação da PLMJ (aqui). Há, assim, a suspeita de que o ataque à PLMJ tenha resultado de uma ação combinada, com uma atuação externa mas, conjugada com outra interna.

Certo é dizer-se que a maior ameaça é a interna e, mais especificamente, a que está por detrás de um teclado. Sobretudo através dos dispositivos pessoais, designadamente computadores portáteis e telemóveis (aqui) que são alvos fáceis de malware e que, de forma geral, beneficiam de ligações às redes das organizações como se fossem dispositivos internos.

Os especialistas de segurança de informação lá vão alertando para o facto de que a maior ameaça à segurança ter origem interna e que as toupeiras são uma praga com tendência a alastrar-se. Mas, no tradicional clima de irresponsabilidade generalizada que em português suave se designa, por vezes, de otimismo, os alertas não passam de pessimismo e alarmismo. É a gestão de risco que temos.

O mais engraçado é que muitas vezes consegue-se falar dos efeitos das toupeiras calando o tema das toupeiras. O acesso aos dados da Câmara de Ovar é um desses casos que parece ser obra de toupeira, mas que dificilmente será comentado na perspetiva da segurança da informação e das ameaças internas.

O caso que chamo ser da Câmara de Ovar é colocado na imprensa como sendo o caso do Lexus LS500h (setenta e muitos mil euros de carro) do presidente da Câmara de Ovar, Vice do PSD, Salvador Malheiro.

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O caso PLMJ

Que tal a Ordem dos advogados recomendar que as sociedades de advogados sejam assistidas por um Conselho Consultivo de Segurança da Informação?

A Ordem dos Advogados manifestou o maior repúdio e considerou absolutamente inaceitável o ataque informático de que foi alvo a sociedade de advogados PLMJ. A Ordem “esqueceu-se” de comentar as obrigações que as sociedades de advogados têm no que respeita à segurança da informação. É fácil concordar que o hacker é o vilão da história, mas será que a PLMJ pode demonstrar que não é o segundo vilão?

A noticia da violação de dados ocorrida na sociedade de advogados PLMJ foi amplamente referida nos meios de comunicação social e pode ser lida, entre outros locais, aqui.

A Ordem dos Advogados, em comunicado assinado pelo bastonário, afirma que “uma advocacia sem medo e sem que os cidadãos tenham medo de a ela recorrer é essencial para a vida em democracia e para a proteção dos direitos de todos, pelo que procurar condicioná-la, seja de que forma for, tem de merecer, da sociedade, o maior repúdio e censura. Trata-se de um inaceitável atentado ao Estado de Direito e de um atentado de que todos, advogados e não só, são vítimas e em que todos estão na mira”.

Não se vê no comunicado da Ordem dos Advogados, nenhuma referência a algum código de conduta ou práticas de segurança da informação que obriguem, em particular, as sociedades de advogados. É bem claro que o vilão da história é o hacker, que ao que se diz é o mesmo do caso emails do Benfica, mas poderá haver um segundo vilão. Quem não protege a informação que lhe está confiada é, também, um vilão. É um vilão de outro teor, mas um vilão.

Parece evidente que uma sociedade de advogados que não dê prioridade à segurança das informações dos clientes e à defesa dos seus interesses e direitos constitui-se no segundo vilão da história. Dar prioridade significa, desde logo, afetar meios humanos, tecnológicos e, portanto, financeiros a esse objetivo. Essa prioridade tem que ser demonstrada, a sociedade de advogados tem que respeitar o princípio da accountability, tem que ser capaz de demonstrar responsabilidade. E se não for capaz de demonstrar responsabilidade, a meu ver, constitui-se como o segundo vilão da história. A Ordem dos Advogados deve dar indicações precisas de como essa demonstração de responsabilidade deve ser realizada, até porque, a natureza da informação à guarda de uma sociedade de advogados pode ser de máxima confidencialidade.

É óbvio que as sociedades de advogados não devem nem podem vir para a praça publica divulgar as medidas de segurança que as protegem, mas certamente que podem ser certificadas ISO 27001 e/ou terem um Conselho Consultivo para a Segurança da Informação recheado com nomes sonantes. Qualquer uma destas práticas, só por si, daria uma imagem publica de demonstração de responsabilidade.

Mas para o caso de sociedades de advogados do tipo da PLMJ, o que se recomenda é a aplicação conjunta das duas mediadas, Certificação ISO 27001 e Conselho Consultivo para a Segurança da Informação.

Lamentável é que a Ordem dos Advogados não vincule as sociedades de advogados a determinadas práticas que consagrem a demonstração de responsabilidade.

É evidente o papel da certificação ISO 27001 na demonstração da responsabilidade, mas já não é tão óbvio o papel de um Conselho Consultivo para a Segurança da Informação, ainda que em meu entender, o Conselho Consultivo possa ser um instrumento prático de muito maior alcance e eficiência que a certificação ISO 27001.

Então mas o DPO, o encarregado de proteção de dados (EPD), não é suficiente?

Note-se que não estamos a referir a necessidade de um Conselho Consultivo para a proteção de dados pessoais (ou privacidade) como por exemplo o da seguradora AXA (aqui) porque há vastas competências nessa área dentro de uma sociedade de advogados como a PLMJ. O que se alerta é para o problema da segurança da informação e a necessidade de um respetivo Conselho Consultivo, numa área que não é da especialidade de uma sociedade de advogados.

Vejamos a adequabilidade, vantagens e desvantagens do Conselho Consultivo para a Segurança da Informação como forma de proteção e de demonstração da responsabilidade. Neste sentido, comecemos por caracterizar a natureza de um Conselho Consultivo.

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Alemanha tenta justificar-se

Em Setembro de 2018 foi anunciado que 1,8 milhões de registos foram roubados da Knuddels. O resultado final foi uma coima de 20.000 euros e um investimento em segurança de 6 dígitos.

O Knuddels.de é um serviço online baseado na Web que consiste numa plataforma de flirty chat para pessoas com mais de 14 anos de idade. Knuddels serve, sobretudo, uma comunidade de jovens adultos de língua alemã.

No comunicado de imprensa da autoridade de controlo alemã do Estado (Bundesländer) Baden-Wuerttemberg (LfDI) (aqui) percebe-se bem a necessidade de justificação da coima ser incompreensivelmente baixa o que deixa uma grande interrogação sobre a desejável uniformidade de critérios das várias autoridades de controlo da União Europeia.

Em julho deste ano, a plataforma de flirty chat  sofreu uma violação de dados e as informações roubadas dos seus servidores foram publicadas on-line. Um membro da equipe disse, na altura, que o incidente afetou todos os utilizadores que tinham uma conta na plataforma em 20 de julho de 2018 o que corresponde a 808.000 emails e 1,8 milhões de nomes de utilizadores e passwords.

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A accountability e as coimas


Há um enigma na sociedade portuguesa que consegue fazer indiferenciar a falha com responsabilidade demonstrada da falha proveniente da demonstrada irresponsabilidade.

Não podemos deixar que esta fuga épica à responsabilidade demonstrada (accountability), já consagrada no anedotário nacional, contamine a aplicação do RGPD. Bem bastam Entre-os-Rios, Pedrogão, Tancos e Borba, não precisamos contaminar o RGPD com este flagelo nacional.

O princípio da responsabilidade demonstrada de forma transversal e a nível nacional seria um enorme avanço civilizacional. Ainda que uma questão fraturante, traria enormes benefícios de produtividade, segurança, eficiência e eficácia. Mas, fiquemos pela accountability ao nível do RGPD.

A que se deve a desconsideração atribuída à accountability, inclusive por parte da própria Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) ? O RGPD não é suficientemente claro?

Antes de desenvolvermos o tema, mais que ter presente uma definição de accountability, importa ter presente qual o conceito que está na sua origem. A accountability é o controlo do poder e da autoridade.

A accountability é a resposta à preocupação de saber como manter o poder sob controle, como domesticá-lo, como evitar abusos, como submetê-lo a determinados procedimentos e regras de conduta. A accountability ganha centralidade porque expressa a preocupação contínua com a vigilância em relação ao exercício do poder e as consequentes restrições institucionais sobre o seu exercício.

Hoje em dia, o controlo do poder, no caso, o controlo da gestão das organizações não se limita a ver se foi cometida alguma ação inadequada, é também, ver as falhas por omissão.

Accoutability impõe que o poder se exerça de forma diligente, informada, racional e documentada. O que se procura combater é a falha por dolo, a corrupção, o erro grosseiro e a omissão descuidada. Cabe ao poder (à gestão) demonstrar que agiu de forma diligente, informada, racional e documentada num processo de “prestação de contas”.

Agora já podemos responder à pergunta se o RGPD é suficientemente claro no que respeita ao principio da accoutability. A resposta é afirmativa, a clareza do RGPD é cristalina e ninguém questiona a obrigação de se respeitar o princípio da accountability.

As alíneas b) e d) do n. 2 do artigo 83º do RGPD referem que as condições gerais para a aplicação de coimas devem considerar o carácter intencional ou negligente da infração e o grau de responsabilidade tendo em conta as medidas técnicas ou organizativas implementadas nos termos dos artigos 25º e 32º. O n. 3 do artigo 83 do RGPD limita e subordina estabelecendo que se o responsável pelo tratamento ou o subcontratante violar, intencionalmente ou por negligência, no âmbito das mesmas operações de tratamento ou de operações ligadas entre si, várias disposições do regulamento, o montante total da coima não pode exceder o montante especificado para a violação mais grave.

Vejamos, então, 3 casos que ilustram a forma como a fuga ao princípio da responsabilidade é socialmente considerada.

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