A accountability e as coimas


Há um enigma na sociedade portuguesa que consegue fazer indiferenciar a falha com responsabilidade demonstrada da falha proveniente da demonstrada irresponsabilidade.

Não podemos deixar que esta fuga épica à responsabilidade demonstrada (accountability), já consagrada no anedotário nacional, contamine a aplicação do RGPD. Bem bastam Entre-os-Rios, Pedrogão, Tancos e Borba, não precisamos contaminar o RGPD com este flagelo nacional.

O princípio da responsabilidade demonstrada de forma transversal e a nível nacional seria um enorme avanço civilizacional. Ainda que uma questão fraturante, traria enormes benefícios de produtividade, segurança, eficiência e eficácia. Mas, fiquemos pela accountability ao nível do RGPD.

A que se deve a desconsideração atribuída à accountability, inclusive por parte da própria Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) ? O RGPD não é suficientemente claro?

Antes de desenvolvermos o tema, mais que ter presente uma definição de accountability, importa ter presente qual o conceito que está na sua origem. A accountability é o controlo do poder e da autoridade.

A accountability é a resposta à preocupação de saber como manter o poder sob controle, como domesticá-lo, como evitar abusos, como submetê-lo a determinados procedimentos e regras de conduta. A accountability ganha centralidade porque expressa a preocupação contínua com a vigilância em relação ao exercício do poder e as consequentes restrições institucionais sobre o seu exercício.

Hoje em dia, o controlo do poder, no caso, o controlo da gestão das organizações não se limita a ver se foi cometida alguma ação inadequada, é também, ver as falhas por omissão.

Accoutability impõe que o poder se exerça de forma diligente, informada, racional e documentada. O que se procura combater é a falha por dolo, a corrupção, o erro grosseiro e a omissão descuidada. Cabe ao poder (à gestão) demonstrar que agiu de forma diligente, informada, racional e documentada num processo de “prestação de contas”.

Agora já podemos responder à pergunta se o RGPD é suficientemente claro no que respeita ao principio da accoutability. A resposta é afirmativa, a clareza do RGPD é cristalina e ninguém questiona a obrigação de se respeitar o princípio da accountability.

As alíneas b) e d) do n. 2 do artigo 83º do RGPD referem que as condições gerais para a aplicação de coimas devem considerar o carácter intencional ou negligente da infração e o grau de responsabilidade tendo em conta as medidas técnicas ou organizativas implementadas nos termos dos artigos 25º e 32º. O n. 3 do artigo 83 do RGPD limita e subordina estabelecendo que se o responsável pelo tratamento ou o subcontratante violar, intencionalmente ou por negligência, no âmbito das mesmas operações de tratamento ou de operações ligadas entre si, várias disposições do regulamento, o montante total da coima não pode exceder o montante especificado para a violação mais grave.

Vejamos, então, 3 casos que ilustram a forma como a fuga ao princípio da responsabilidade é socialmente considerada.

Continue reading “A accountability e as coimas”

Lei de dados à boleia da Web Summit

O caminho do sucesso das empresas e a possibilidade de se reorganizarem de modo frutífero não tem no RGPD uma barreira a transpor, mas antes um caminho de oportunidades a aproveitar.

Os temas da privacidade e proteção de dados surgem novamente em Portugal, desta vez através do imenso palco da Web Summit.

Na cimeira tecnológica, grandes figuras como Sir Tim Berners-Lee, o inventor da World WideWeb, salientaram a importância do tema, enaltecendo o direito à privacidade como um direito fundamental. Não deixa de ser extremamente importante que uma das maiores figuras da internet reconheça a relevância da privacidade, acrescentando ainda que o RGPD deveria servir para que mais países e gigantes tecnológicos pensassem sobre o assunto.

Em contra ciclo, o legislador português parece continuar alheado da manifesta urgência em aprovar a legislação nacional de concretização do RGPD, adiando sem justificação aparente um diploma normativo que há muito se aguarda, decorridos que estão mais de seis meses da aplicação plena do RGPD na ordem jurídica dos Estados Membros.

Continue reading “Lei de dados à boleia da Web Summit”